Cansaço ou altas habilidades?
Quando uma mulher começa a questionar como funciona
“Quando a exaustão leva uma mulher a perguntar se existe algo sobre seu modo de funcionar que nunca foi compreendido.”
Quando passar a vida tentando se adaptar pode esconder uma parte importante de quem você é
Às vezes, é a sensação de que pensar, sentir, perceber e fazer tudo ao mesmo tempo exige um esforço que ninguém parece enxergar.
Você aprende rápido, percebe detalhes, faz associações que outras pessoas não fazem, tem muitos interesses, muitas ideias e uma necessidade quase permanente de compreender as coisas profundamente.
Ao mesmo tempo, pode sentir dificuldade para desligar a mente, organizar tantas possibilidades ou simplesmente se sentir pertencente.
E então surge uma pergunta:
Será que é apenas cansaço?
Ou será que existe algo sobre a maneira como eu funciono que nunca compreendi?
Essa pergunta merece ser feita com cuidado.
No Brasil, o conceito de Altas Habilidades ou Superdotação (AH/SD) ganhou recentemente uma definição legal mais específica.
A Lei nº 15.436, de 17 de junho de 2026, define AH/SD como uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada, entre outros aspectos, por potencial intelectual elevado, intensa curiosidade, elevada capacidade de aprendizagem e profundo envolvimento em temas de interesse.
A própria legislação também menciona que essas características podem ser acompanhadas de alta sensibilidade e intensidade emocional.
“É aquela pessoa que tira as melhores notas.”
Não necessariamente.
Altas habilidades podem se manifestar de diferentes formas e em diferentes contextos. E potencial não é a mesma coisa que desempenho constante.
Uma pessoa pode apresentar grande capacidade em determinada área e, ainda assim, encontrar dificuldades em outras.
E por que algumas mulheres só começam a pensar nisso na vida adulta?
Essa é uma questão particularmente interessante.
Um estudo brasileiro publicado na Revista Brasileira de Educação Especial acompanhou duas mulheres, de 47 e 50 anos, identificadas com altas habilidades/superdotação somente na vida adulta.
As pesquisadoras observaram que, mesmo depois da identificação formal, as participantes ainda apresentavam dificuldades para reconhecer e aceitar suas próprias características de AH/SD.
O estudo é pequeno — apenas duas participantes — e, portanto, não permite generalizações para todas as mulheres.
Mas ele mostra algo importante:
a identificação pode modificar a maneira como uma mulher interpreta a própria história.
Características que antes pareciam estranhas ou difíceis de compreender podem começar a fazer sentido dentro de uma nova compreensão de si mesma.
“Você pensa demais.”
Quantas mulheres cresceram ouvindo frases como:
“Você complica tudo.”
“Você pensa demais.”
“Você é sensível demais.”
“Você quer saber o porquê de tudo.”
“Você tem potencial, mas precisa se organizar.”
“Você começa mil coisas.”
“Você deveria simplesmente relaxar.”
Essas frases, isoladamente, não identificam altas habilidades.
Mas podem fazer parte da história de uma pessoa que passou anos tentando compreender por que funciona de uma maneira diferente das pessoas ao seu redor.
E existe uma diferença importante entre:
ter muitas capacidades e conseguir transformar todas elas em desempenho organizado e constante.
A literatura científica sobre adultos com altas habilidades ainda é limitada em diversas áreas. Uma revisão sistemática de 2022 analisou 40 estudos sobre a situação profissional de adultos com altas habilidades e destacou justamente a escassez de pesquisas confiáveis em comparação com a quantidade de estereótipos existentes sobre essas pessoas.
Isso significa que precisamos ter cuidado com afirmações como:
“Todo superdotado sofre burnout.” ou
“Toda pessoa com altas habilidades é emocionalmente intensa.”
Essas generalizações não são sustentadas pela evidência disponível.
E quando a mulher também é autista?
Aqui entramos em outro campo que vem recebendo crescente atenção científica: o autismo em mulheres e o diagnóstico tardio.
Pesquisas mostram que algumas mulheres autistas utilizam estratégias de camuflagem social — isto é, estratégias conscientes ou inconscientes para esconder, compensar ou adaptar características autistas durante as interações sociais.
Uma revisão sistemática publicada em 2021 analisou 13 estudos empíricos sobre camuflagem em mulheres autistas e encontrou evidências de que esse fenômeno pode funcionar como uma estratégia adaptativa, embora também possa trazer consequências negativas para a vida cotidiana.
Outra mais recente sobre procedimentos diagnósticos também aponta que algumas mulheres podem passar despercebidas porque seus comportamentos observáveis não correspondem aos estereótipos tradicionais de autismo. A camuflagem pode dificultar o reconhecimento das características durante avaliações breves.
E uma revisão sistemática publicada em 2026 encontrou, entre os estudos analisados, evidências consistentes de atraso diagnóstico em meninas e mulheres, menor sensibilidade de alguns instrumentos para apresentações menos externalizantes e participação da camuflagem nesse processo.
Isso ajuda a compreender por que algumas mulheres chegam à idade adulta dizendo:
“Passei a vida inteira tentando descobrir como deveria ser.”
Quando a adaptação também cansa
Imagine passar anos observando as pessoas ao redor para descobrir:
- como conversar,
- como reagir,
- como se comportar,
- como demonstrar emoções,
- quando falar,
- quando ficar quieta,
- como parecer tranquila,
- como não parecer “diferente”.
Para algumas mulheres autistas, essa adaptação pode envolver camuflagem social.
Uma revisão integrativa publicada recentemente reuniu 28 estudos, envolvendo 2.669 participantes, e identificou diferentes estratégias de camuflagem, incluindo imitação e supressão de comportamentos. Os autores também discutem associações entre camuflagem e resultados negativos de saúde mental, embora ressaltem que a relação causal não está completamente estabelecida.
Portanto, não podemos afirmar:
“A camuflagem causa exaustão.”
Mas podemos dizer que há evidências de associação entre camuflagem e sofrimento/exaustão em parte das pessoas estudadas.
Essa diferença entre associação e causalidade é fundamental quando queremos falar de saúde com responsabilidade.
Altas habilidades, autismo e a chamada dupla excepcionalidade
Existe ainda uma possibilidade que merece atenção: uma pessoa apresentar altas habilidades/superdotação juntamente com outra condição do neurodesenvolvimento.
A legislação brasileira de 2026 passou a utilizar expressamente o conceito de dupla excepcionalidade, citando como exemplos TEA, TDAH, dislexia e outras condições.
Isso ajuda a romper uma ideia equivocada:
“Se ela tem muita capacidade, não pode ter dificuldades importantes.”
Pode. E como pode!
Capacidade elevada em determinada área não elimina necessariamente dificuldades em outra.
Uma pessoa pode ser extremamente competente profissionalmente e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades significativas de organização, regulação, interação social, sobrecarga sensorial ou adaptação.
Potencial e dificuldade podem coexistir.
Mas então: cansaço ou altas habilidades?
A resposta mais honesta é:
não dá para descobrir isso apenas pelo cansaço.
Cansaço é um sintoma inespecífico e pode ter inúmeras causas.
Sono inadequado, estresse, condições clínicas, alterações hormonais, sobrecarga profissional, questões emocionais, medicamentos, alimentação, sedentarismo e diversas outras situações podem contribuir para fadiga.
E há uma diferença importante entre cansaço cotidiano e burnout ocupacional.
A Organização Mundial da Saúde classifica o burnout na CID-11 como um fenômeno ocupacional, relacionado ao estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente administrado. Seus três componentes são exaustão, distanciamento mental/negativismo em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional.
Portanto, nem todo cansaço é burnout.
E nem burnout significa altas habilidades.
Talvez a pergunta mais interessante seja outra.
Em vez de perguntar apenas:
“Por que estou tão cansada?”
talvez algumas pessoas possam acrescentar:
“Como eu funciono?”
“Como aprendo?”
“Como percebo o mundo?”
“Por que determinadas situações me sobrecarregam?”
“Por que preciso compreender profundamente algumas coisas?”
“Por que tenho tantos interesses?”
“Por que algumas situações sociais exigem tanto esforço?”
“Por que sinto que passo tanto tempo tentando me adaptar?”
“Existe alguma característica minha que nunca foi compreendida?”
Essas perguntas não são um diagnóstico.
São perguntas de autoconhecimento.
E, quando existe sofrimento significativo ou suspeita de uma condição do neurodesenvolvimento, a investigação deve ser feita por profissionais habilitados.
Talvez você não precise se esforçar mais para caber
Para algumas mulheres, compreender uma característica que esteve presente durante toda a vida pode trazer uma nova maneira de olhar para a própria história.
Não significa colocar um rótulo em tudo.
Não significa transformar toda diferença em diagnóstico.
E também não significa concluir que todo cansaço é consequência de altas habilidades ou autismo.
Significa abrir espaço para uma pergunta mais gentil:
“E se eu passar menos tempo tentando descobrir como deveria ser e mais tempo aprendendo como realmente funciono?”
Talvez compreender-se seja o primeiro passo para fazer escolhas mais coerentes com quem você é.
E onde entra o Coragem F-Core?
O Coragem foi estruturado como uma jornada de autoconhecimento e movimento, organizada em quatro etapas:
REVELAR A AÇÃO → COMPREENDER → FOCO → CORAGEM
A proposta não é diagnosticar.
Não é tratar uma condição do neurodesenvolvimento.
E não substitui avaliação ou acompanhamento profissional.
É uma proposta de olhar para dentro, organizar aquilo que está pedindo atenção e encontrar espaço para o próximo passo.
Porque, às vezes, antes de perguntar:
“Como faço para produzir mais?”
talvez seja necessário perguntar:
“O que eu ainda não compreendi sobre mim?” Coragem F-Core
Para quem está pronta para olhar para dentro e voltar a se movimentar por dentro.
Escrito por Fúlvia Maria farmacêutica, dra em Ciências
Terapeuta Fulltherapia
Sistematizadora do Floral F-Core
Fontes e leituras recomendadas:
•BRASIL. Lei nº 15.436, de 17 de junho de 2026. Institui a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação; cria o Cadastro Nacional de Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação; e altera a Lei nº 11.578, de 26 de novembro de 2007. Brasília, DF: Presidência da República, [2026]. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/lei/l15436.htm>. Acesso em: 25/09/2026.
•BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Qual a definição de estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação (AH/SD)? Brasília, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/acesso-a-informacao/perguntas-frequentes/censo-escolar/educacao-especial/qual-a-definicao-de-estudantes-1. Acesso em: [25/09/2026].
•PÉREZ, Susana Graciela Pérez Barrera; FREITAS, Soraia Napoleão. A mulher com altas habilidades/superdotação: à procura de uma identidade. Revista Brasileira de Educação Especial, Marília, v. 18, n. 4, p. 677-694, out./dez. 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1413-65382012000400010. Acesso em: [13/09/2026]
•SCHLEGLER, Maren. Systematic Literature Review: Professional Situation of Gifted Adults. Frontiers in Psychology, v. 13, p. 1-13, 18 maio 2022. Disponível em: https://doi.org/10.3389/fpsyg.2022.736487. Acesso em: [25/09/2026].
•TUBÍO-FUNGUEIRIÑO, M. et al. Social camouflaging in females with autism spectrum disorder: A systematic review. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 51, n. 7, p. 2190–2199, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s10803-020-04695-x. Acesso em: [23/09/2026].
•COOK, Julia; HULL, Laura; MANDY, Will. Improving Diagnostic Procedures in Autism for Girls and Women: A Narrative Review. Neuropsychiatric Disease and Treatment, v. 20, p. 505-514, 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10926859/.
•ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). CID-11: Burnout é um fenômeno ocupacional. Genebra: OMS, 2019. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/28-5-2019-cid-burnout-e-um-fenomeno-ocupacional. Acesso em: [25/09/2026].t, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.
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